Comparar o lucro de duas unidades começa por separar a receita de cada uma e ratear o custo compartilhado com um critério escrito. Sem esse critério, a unidade que ocupa o imóvel maior ou que usa mais a equipe aparece artificialmente menos lucrativa — e a decisão de investir acaba indo para o lado errado. O caminho tem três partes: plano de contas por unidade, critério de rateio definido antes de olhar o número e leitura do resultado com o mesmo período dos dois lados.

Por que essa pergunta importa para quem já tem mais de uma unidade em 2026

A pergunta quase nunca nasce de curiosidade. O sistema dos conselhos de odontologia já reúne 87 mil clínicas, as EPAOs, segundo o Conselho Federal de Odontologia (CFO), e uma parte delas já opera em mais de um endereço. Pelo levantamento de sobrevivência do Sebrae, 21,6% das microempresas fecham após 5 anos de atividade, o que torna cara a decisão de abrir ou manter uma unidade que não fecha a conta. Ela aparece quando há uma decisão na mesa: onde instalar a próxima cadeira, se vale renovar o contrato do ponto alugado, qual unidade recebe o investimento em equipamento ou se é hora de encerrar uma operação que não fecha a conta.

O problema é que, em boa parte das clínicas com duas ou três unidades, o dinheiro entra e sai sem que o lançamento diga a qual unidade pertence. Quando o pagamento é acompanhado na mão, é comum o valor do tratamento da unidade nova cair na conta única da matriz.

A segunda armadilha é o custo compartilhado. Aluguel, equipe administrativa, sistema, contabilidade do grupo e estoque comprado em lote servem às duas unidades ao mesmo tempo e não vêm etiquetados. Jogar o valor inteiro na unidade onde a conta foi paga faz uma parecer excelente e a outra parecer deficitária. É exatamente nesse ponto que a comparação entre unidades mente.

A terceira armadilha é mais silenciosa: comparar a unidade antiga, com carteira formada, com a nova, que ainda constrói base.

O que decidir antes de comparar o lucro de duas unidades

Antes de qualquer relatório, a clínica precisa responder por escrito a quatro perguntas. Cada uma muda o resultado final.

O que conta como uma unidade?

Unidade pode ser um CNPJ separado, um endereço ou um conjunto de cadeiras com equipe própria. A escolha precisa valer ao mesmo tempo para receita e para custo. Se a segunda unidade funciona no mesmo CNPJ da primeira, ela continua sendo uma unidade para efeito de gestão: o que muda é a abertura do plano de contas, não o registro fiscal.

Onde a receita de cada unidade é reconhecida?

O critério mais honesto é o local onde o atendimento aconteceu, e não onde o dinheiro entrou. É a lógica do regime de competência: a Lei das S.A. manda apurar o resultado pelas receitas e rendimentos ganhos no período, independentemente da realização em moeda, junto com os custos correspondentes a essas receitas. O paciente que avalia na unidade A e trata na B gerou receita na B e captação na A. O peso da forma de recebimento aparece num caso publicado no blog da Capim: no claim editorial sobre as Clínicas Oral Sin, cerca de 70% do faturamento provém do financiamento (artigo).

O custo compartilhado vai ser rateado por qual critério?

Rateio é a divisão de um custo que serve a mais de uma unidade. Pode seguir a área ocupada, o número de cadeiras, as horas de equipe, o número de atendimentos ou a receita gerada. O critério certo é o que estiver escrito e aplicado igual todos os meses.

As duas unidades praticam a mesma tabela de preços?

A comparação começa pela tabela. O Código de Ética Odontológica, do CFO, pede que o profissional comunique previamente ao paciente os custos dos honorários e trata como infração ética submeter o paciente a tratamento de custo inesperado. Duas tabelas diferentes produzem margens diferentes no mesmo procedimento — e a comparação de lucro passa a medir preço, não eficiência.

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O passo a passo para separar o resultado de cada unidade

O roteiro serve para duas ou três unidades e começa com o que a clínica já tem.

  1. Cada unidade vira um centro de custo. No sistema, na planilha ou no ERP da contabilidade, cada unidade precisa de um código próprio.
  2. Monte um plano de contas mínimo, igual para todas. As mesmas categorias de receita e de despesa em todos os lados. Conta que existe em uma unidade só impede a comparação linha a linha.
  3. Etiquete todo lançamento com a unidade. Recebimento, compra de material, folha, aluguel, energia. O que não puder ser etiquetado é compartilhado e vai para o rateio.
  4. Separe custo direto de custo compartilhado. O guia de precificação do Sebrae lembra que os gastos fixos não variam no curto prazo com o volume de vendas, e é entre eles que mora quase todo o rateio. Direto é o que só existe por causa daquela unidade: o aluguel do ponto, a equipe do endereço, o material consumido ali. Compartilhado é o que serve a todas.
  5. Escreva o critério de rateio de cada custo compartilhado. Um critério por linha, o mesmo em todos os meses.
  6. Feche a receita das unidades no mesmo período. Mês contra mês, com todas as unidades no mesmo intervalo. Comparar janeiro de uma com julho da outra não diz nada sobre eficiência.
  7. Monte o resultado por unidade. Receita da unidade, menos os custos diretos dela, menos a parte rateada dos compartilhados.
  8. Leia o número junto com o contexto. Tempo de operação, base de pacientes ativos, número de cadeiras e taxa de ocupação. O valor sozinho não conta a história de nenhuma unidade.

O rateio do custo compartilhado: onde a comparação entre unidades mente

Ratear não é dividir por dois. É escolher, para cada custo, a base que ele realmente acompanha. A tabela reúne os itens que mais aparecem em clínicas com mais de uma unidade e o critério que costuma distorcer menos a leitura.

Custo compartilhadoComo ratear sem distorcer a comparação
Aluguel e estrutura físicaPor área ocupada, quando o contrato é único para as duas unidades; se cada unidade tem contrato próprio, o aluguel já é custo direto
Equipe administrativa e recepçãoPor horas efetivamente dedicadas a cada unidade, quando existe registro; na falta dele, por número de atendimentos
Marketing da marca e campanhas do grupoPela origem do paciente atendido, e não por onde o anúncio rodou
Estoque e material comprado em lotePor consumo registrado na baixa de estoque de cada unidade
Sistema, telefonia e ferramentasPor usuário ativo ou por unidade cadastrada, com o mesmo critério todos os meses
Contabilidade e serviços do grupoPor receita gerada, que é a base mais estável quando as unidades têm portes diferentes
Deslocamento de equipe entre unidadesPor quilometragem ou por número de visitas registradas

O erro mais comum é trocar de critério quando o resultado de uma unidade desagrada.

Papel, planilha ou sistema: qual ferramenta dá conta de comparar as unidades

Nenhuma das três opções ganha em tudo.

CritérioPapel ou cadernoPlanilhaSistema de gestão
Custo para começarVence: basta anotar, sem montar nadaMédio: exige montar fórmulas e o plano de contasMaior: exige cadastrar e migrar dados
Etiqueta de unidade em cada lançamentoDepende da disciplina de quem anotaColuna própria, filtrávelCampo próprio no cadastro
Rateio com critério escritoDifícil de manter igual todo mêsVence para quem quer testar vários critérios na mãoRegistra o critério, mas a escolha segue sendo da gestão
Histórico mês a mêsFrágilBom, enquanto uma só pessoa cuida do arquivoVence: fica no mesmo lugar, sem redigitação
Acesso por unidade, com a LGPD em vistaPior: a folha circulaDepende de quem abre o arquivoVence: permite separar quem vê o consolidado

Para duas unidades pequenas, a planilha costuma bastar.

O plano de contas e o centro de custo mínimo

Para que a comparação exista, o plano de contas precisa de cinco blocos, iguais em todas as unidades:

  • Receita por unidade, separada ao menos por grupo de procedimento e por forma de recebimento.
  • Custos diretos: material, laboratório, repasse a dentista associado, aluguel do ponto e equipe do endereço.
  • Despesas operacionais da unidade: energia, internet, manutenção e limpeza.
  • Despesas compartilhadas rateadas, com uma linha para cada critério adotado.
  • Resultado por unidade: receita menos os três blocos anteriores.

Para ler o resultado de cada unidade, a margem de contribuição ajuda: o Sebrae a define como o quanto realmente sobra das vendas após o pagamento dos custos e despesas variáveis, antes de entrarem os custos fixos rateados. Esse conjunto é a base de um DRE simples. O passo a passo da montagem está em como montar um DRE simples para a clínica odontológica.

O que medir além do lucro de cada unidade

Lucro por unidade responde onde investir, mas não explica por quê. Quatro indicadores ajudam a interpretar o número:

  • Ticket médio por unidade, que mostra se a diferença de receita vem de preço, de mix de procedimentos ou de volume. Veja como calcular o ticket médio da clínica odontológica.
  • Taxa de ocupação da cadeira, que separa unidade cheia de unidade ociosa.
  • Taxa de aceitação de orçamento, que revela se a diferença de resultado nasce na apresentação do tratamento.
  • Base de pacientes inativos, que muda o potencial de recuperação de receita sem novo investimento em captação.

Em testes internos, campanhas feitas pela Camila Comunicativa geraram uma taxa de retorno até 3 vezes maior do que pacientes que não foram contatados — funcionalidade da própria Capim, que descreve a reativação de pacientes inativos pelo WhatsApp, com até 50 pacientes por campanha.

O relatório por unidade envolve dado de paciente?

Envolve. Um resultado por unidade cruza receita, procedimento e identificação do paciente. A LGPD trata o dado referente à saúde como dado pessoal sensível (art. 5º, II) e exige que os agentes de tratamento adotem medidas de segurança, técnicas e administrativas, aptas a proteger os dados pessoais de acessos não autorizados (art. 46), com a ANPD como autoridade nacional.

O que dá para fazer só com processo — e onde entra ferramenta

Nenhum sistema decide o critério de rateio no lugar da clínica. A escolha da base, a tabela de preços e a leitura do contexto são decisões de gestão, e valem mesmo quando toda a informação está numa planilha. O que a ferramenta faz é tirar a redigitação do caminho e manter o histórico no mesmo lugar, mês após mês.

A Capim é uma plataforma de gestão para clínicas odontológicas que reúne gestão, soluções financeiras e crédito ao paciente. As três frentes são o Capim Dash, o software de gestão com agenda, prontuário eletrônico, odontograma, anamnese digital, assinatura eletrônica, financeiro e aplicativo para iOS e Android; o crédito ao paciente, com o Financiamento Capim e o Carnê Capim; e a Maquininha Capim. O Capim Dash é cobrado por mensalidade flat, sem cobrança por assento, por mensagem ou por agendamento — um modelo que simplifica o rateio da linha de sistema entre as unidades.

Na categoria de software de gestão odontológica, Simples Dental, Clinicorp, Codental e Dental Office estão entre os sistemas que a clínica costuma avaliar.

Como o Capim Dash apresenta relatórios separados por unidade e como as despesas compartilhadas entram nas visões do sistema são pontos para confirmar na demonstração, com o plano de contas da clínica em mãos. A gestão de duas unidades tem particularidades de rotina, de equipe e de agenda que estão em como gerenciar duas unidades da mesma clínica odontológica.

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Perguntas frequentes

Dá para comparar o lucro de duas unidades usando só uma planilha?

Dá, desde que cada lançamento tenha a etiqueta da unidade e o critério de rateio esteja escrito. A planilha não impede a comparação; o que impede é a conta única, sem separação de receita e sem rateio definido. O sistema entra depois, para reduzir redigitação.

Como ratear o aluguel quando as duas unidades ficam no mesmo endereço?

O critério mais simples é a área ocupada por cada unidade, medida em metros quadrados ou em número de salas. O importante é que o critério fique escrito e seja aplicado igual todos os meses, para que a série histórica continue comparável.

Uma unidade pode dar lucro e a outra prejuízo dentro do mesmo CNPJ?

Pode, e é comum. A separação é gerencial, feita no plano de contas e no centro de custo, e não muda o registro fiscal, que continua sendo do CNPJ. Quem consolida o resultado fiscal é o contador da clínica.

Como comparar uma unidade antiga com uma unidade recém-aberta?

Separando maturidade de eficiência: tempo de operação, base de pacientes ativos e taxa de ocupação entram como contexto, ao lado do resultado. Comparar as duas no mesmo mês de calendário, sem esse contexto, costuma apontar como problema o que é apenas curva de crescimento.

De quanto em quanto tempo revisar o rateio e o resultado por unidade?

O fechamento mensal é o ritmo natural; a revisão do critério de rateio pede menos frequência, uma ou duas vezes por ano, ou quando muda algo estrutural, como um contrato de aluguel novo ou a entrada de mais uma cadeira.

Em resumo

  • Saber qual unidade dá mais lucro exige três decisões escritas: plano de contas por unidade, critério de rateio do custo compartilhado e o mesmo período para todas.
  • O rateio é onde a comparação mais mente. Aluguel, equipe administrativa, marketing e estoque em lote precisam de uma base declarada por linha, e não de uma divisão ao meio.
  • Lucro por unidade responde onde investir; ticket médio, ocupação, aceitação de orçamento e base de inativos explicam por quê.
  • O relatório por unidade cruza dados de paciente e entra no escopo da LGPD; a clínica define quem vê o quê.
  • Nenhum sistema escolhe o critério no lugar da gestão. A ferramenta organiza o histórico e tira a redigitação do caminho.

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Sobre a autora

Carla Duarte é redatora da Capim e graduanda de Odontologia. Escreve sobre gestão, recebimento e crédito ao paciente para clínicas.