O odontograma é o mapa gráfico da boca do paciente dentro do prontuário odontológico: cada dente tem um número de dois dígitos e cada face do dente recebe um símbolo que diz o que foi encontrado, o que está planejado e o que já foi feito. Preenchê-lo bem é seguir uma ordem fixa — numeração padrão, faces, legenda escrita, três camadas separadas e registro datado e assinado por quem examinou. Uma clínica de uma a três cadeiras consegue padronizar isso sem trocar de sistema.
Por que o odontograma importa para a clínica, e não só para o dentista
No prontuário, o texto clínico conta a história; o odontograma, em desenho, mostra o estado. Quando o paciente volta seis meses depois, é no odontograma que o dentista vê o que ficou pendente, e é dele que sai o orçamento que a recepção apresenta.
Um odontograma mal preenchido custa em três lugares: na clínica, porque o próximo profissional não sabe se o símbolo quer dizer “cárie encontrada” ou “restauração feita”; no financeiro, porque mapa ambíguo gera orçamento errado; e no registro, porque o prontuário tem exigência ética e legal.
Essa exigência está escrita. O Código de Ética Odontológica, aprovado pela Resolução CFO-118/2012 do Conselho Federal de Odontologia (CFO), lista entre os deveres fundamentais, no art. 9º, inciso X, “elaborar e manter atualizados os prontuários na forma das normas em vigor, incluindo os prontuários digitais”. O art. 17 torna obrigatória a elaboração e a manutenção “de forma legível e atualizada” do prontuário, e o parágrafo único do mesmo artigo manda que ele seja preenchido, em cada avaliação, “em ordem cronológica com data, hora, nome, assinatura e número de registro do cirurgião-dentista no Conselho Regional de Odontologia” — o CRO do estado (Código de Ética Odontológica, PDF do CFO, consultado em 20 de setembro de 2026). O odontograma é parte desse prontuário, então herda as mesmas regras: legível, atualizado, datado e com autor identificado.
Há ainda o dado. A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) lembra que a Lei nº 13.709/2018, a LGPD, inclui no art. 5º, inciso II, os dados referentes à saúde entre os dados pessoais sensíveis (perguntas frequentes da ANPD, consultadas em 20 de setembro de 2026). O mapa dos dentes de um paciente é dado de saúde — e circula entre cadeira, recepção e financeiro com esse peso.
Como a numeração dos dentes funciona no odontograma
O odontograma não chama dente pelo nome (“o primeiro molar de cima do lado direito”); chama pelo número. A norma internacional que fixa essa numeração é a ISO 3950:2016, Dentistry — Designation system for teeth and areas of the oral cavity, conhecida como notação da FDI, a Federação Dentária Internacional (página da norma na ISO, 4ª edição, de 15 de março de 2016). O sistema usa dois dígitos: o primeiro indica o quadrante e se o dente é permanente ou decíduo; o segundo indica o dente, contado a partir da linha média da face.
| Primeiro dígito | O que ele indica |
|---|---|
| 1 | dentes permanentes, arcada superior, lado direito do paciente |
| 2 | dentes permanentes, arcada superior, lado esquerdo |
| 3 | dentes permanentes, arcada inferior, lado esquerdo |
| 4 | dentes permanentes, arcada inferior, lado direito |
| 5 a 8 | os mesmos quatro quadrantes, na mesma ordem, para os dentes decíduos (de leite) |
| Segundo dígito 1 a 8 | na dentição permanente: 1 incisivo central, 2 incisivo lateral, 3 canino, 4 e 5 pré-molares, 6, 7 e 8 molares |
| Segundo dígito 1 a 5 | na dentição decídua, que tem cinco dentes por quadrante |
Na prática, 11 é o incisivo central superior direito, 36 é o primeiro molar inferior esquerdo e 55 é o segundo molar decíduo superior direito. Um detalhe que confunde a recepção: direito e esquerdo são do paciente, não de quem olha a ficha.
As faces do dente e os símbolos que o odontograma registra
Cada dente, no desenho, é dividido em faces. As cinco que o odontograma usa são a mesial (voltada para a linha média), a distal (a oposta), a oclusal nos dentes posteriores ou a incisal nos anteriores (a de mastigação ou corte), a vestibular (voltada para a bochecha ou o lábio) e a lingual nos dentes inferiores ou palatina nos superiores. Uma restauração “MOD” num 46, por exemplo, ocupa mesial, oclusal e distal do primeiro molar inferior direito.
Sobre essas faces, o odontograma registra três tipos de informação:
- condição encontrada — cárie, fratura, dente ausente, raiz residual, restauração existente, prótese, implante;
- procedimento planejado — o que o dentista indicou e ainda não foi feito;
- procedimento realizado — o que foi executado, em que data e por quem.
Não existe um único código de cores obrigatório para essas três camadas. Muitas clínicas usam uma cor para o que precisa ser tratado e outra para o que já existe ou foi feito, mas a convenção varia de escola para escola e de sistema para sistema. É exatamente por isso que o passo 2 abaixo pede a legenda escrita da clínica.
O passo a passo para preencher o odontograma
A ordem abaixo vale para ficha de papel e para odontograma digital. O que muda é quem trava cada campo, não a lógica.
- Confirme o paciente e a dentição antes de marcar qualquer coisa. Nome, data de nascimento e se a ficha é de dentição permanente, decídua ou mista. Criança de oito anos no gráfico de adulto gera marcação em dente que não existe.
- Escreva a legenda da clínica em uma página. Quais símbolos e cores representam cárie, restauração, ausência, extração indicada, canal, prótese e implante; o que é “planejado” e o que é “realizado”. A mesma legenda para todos os profissionais e todas as cadeiras.
- Registre primeiro a situação encontrada. No exame inicial, o dentista marca o estado de cada dente como ele está, inclusive o que outro profissional fez antes. Esse é o odontograma de partida e não se sobrescreve depois.
- Use a numeração de dois dígitos em todo registro escrito. Anotação, evolução e orçamento citam “dente 26, face oclusal”, e não “o de trás em cima”. É o que torna o registro legível para o próximo profissional.
- Marque face por face, não o dente inteiro. Cárie na mesial é diferente de cárie na oclusal: a indicação, o tempo de cadeira e o valor do procedimento mudam.
- Separe a camada do plano. O que foi indicado entra como planejado, com prioridade quando houver. É daqui que sai o plano de tratamento, como explica como montar um plano de tratamento odontológico.
- Dê baixa no realizado no mesmo dia do atendimento. O procedimento executado muda de camada, com data, face e profissional. Baixa acumulada “para o fim da semana” é uma causa comum de odontograma desatualizado.
- Assine e date cada avaliação. É o que o art. 17 do Código de Ética Odontológica pede: ordem cronológica, data, hora, nome, assinatura e número de CRO de quem registrou.
- Corrija sem apagar. Marcação errada recebe nova marcação datada, com nota do motivo. O histórico do que se viu em cada data é parte do registro.
- Revise o odontograma no retorno. Antes de o paciente sentar de novo, alguém confere o que ficou planejado e não realizado. É a lista de pendências clínicas da clínica.
Quem preenche o quê: dentista, auxiliar e recepção
A responsabilidade pelo registro clínico no prontuário é do cirurgião-dentista — é a assinatura e o número de CRO dele que o Código de Ética exige em cada avaliação. Diagnóstico, indicação e baixa de procedimento são marcados por quem examinou e executou, ou sob a supervisão direta dessa pessoa.
A recepção e a secretária não marcam achado clínico, mas cuidam de boa parte do que faz o odontograma funcionar. Conferem se o cadastro está certo antes de o prontuário ser aberto, o que como organizar o cadastro de pacientes da clínica odontológica detalha. Deixam a legenda da clínica disponível, na parede ou no sistema. Transformam o plano do odontograma em orçamento e agendamento. E, no fim do dia, conferem se cada paciente atendido tem baixa lançada — sem baixa, o orçamento continua cobrando o que já foi feito.
Essa conferência cabe na rotina descrita em como organizar a rotina da secretária da clínica odontológica.
Os erros que tornam o odontograma inútil
O primeiro é misturar as três camadas no mesmo desenho: sem separar encontrado, planejado e realizado, fica difícil saber se o símbolo no dente 16 é problema ou solução.
O segundo é legenda na cabeça de cada dentista. Duas convenções de cor na mesma clínica produzem dois odontogramas que dizem coisas opostas com o mesmo desenho.
O terceiro é inverter direito e esquerdo. O lado é o do paciente; o quadrante 1 fica à esquerda de quem olha o gráfico.
O quarto é marcar o dente e esquecer a face. O orçamento de uma restauração de uma face e o de três faces não são o mesmo.
O quinto é sobrescrever o odontograma de partida. Quando o estado inicial some, a clínica perde a prova do que o paciente tinha antes do tratamento.
O sexto é odontograma paralelo: foto da ficha mandada por WhatsApp, anotação em papel solto, planilha à parte. O registro válido é o do prontuário; o resto circula dado de saúde fora do controle de acesso.
O que dá para fazer só com processo — e onde entra a ferramenta
Quase tudo que torna um odontograma confiável é processo. A legenda escrita, a numeração de dois dígitos em todo registro, a separação das três camadas, a baixa no mesmo dia e a correção sem apagar funcionam na ficha de papel — e um sistema, por si só, não resolve um odontograma cuja legenda não foi escrita.
Em alguns sistemas, a ferramenta entra quando o volume cresce e a regra precisa se sustentar sozinha: numeração e faces já desenhadas, dentição trocada conforme a idade, histórico de cada marcação com data e profissional, plano que vira orçamento sem redigitar e acesso por perfil. Na demonstração de qualquer sistema, três perguntas ajudam a decidir: como o sistema separa encontrado, planejado e realizado; o que acontece quando alguém corrige uma marcação; e se o plano marcado no odontograma vira orçamento sem digitar de novo. O roteiro completo está em melhor prontuário eletrônico odontológico: como escolher.
A Capim, fundada em 2021, é uma plataforma de gestão para clínicas odontológicas que reúne gestão, soluções financeiras e crédito ao paciente. O Capim Dash, software de gestão da Capim, traz o odontograma junto de agenda, prontuário eletrônico, anamnese digital, assinatura eletrônica, financeiro e aplicativo para Android e iOS. A Maquininha Capim pode ser contratada sem o Capim Dash e, usada junto com ele, leva cada venda ao financeiro da clínica ligada ao paciente. No Carnê Capim, a clínica define parcelas e valores, recebe a cada boleto pago e fica com o risco e a cobrança. A Capim reúne a gestão da clínica com o Capim Dash, a Maquininha, o Financiamento e o Carnê no mesmo lugar.
No Financiamento Capim, o paciente parcela em até 36x, a Capim analisa o crédito, a clínica recebe o valor à vista em até 3 dias úteis depois que o financiamento é aprovado e o risco e a cobrança ficam com a Capim. Se a clínica depende de um recurso muito específico do odontograma, vale confirmar na demonstração.
Perguntas frequentes
Qual numeração de dentes o odontograma usa?
A notação de dois dígitos da FDI, padronizada pela norma ISO 3950:2016. O primeiro dígito indica o quadrante — 1 a 4 para dentes permanentes, começando pelo superior direito do paciente e seguindo em sentido horário, e 5 a 8 para os decíduos. O segundo indica o dente, contado da linha média: 1 a 8 na dentição permanente e 1 a 5 na decídua. O 11 é o incisivo central superior direito.
Como marcar dentes de leite no odontograma?
Com os quadrantes 5 a 8 e o segundo dígito de 1 a 5, porque a dentição decídua tem cinco dentes por quadrante. O 51 é o incisivo central decíduo superior direito e o 85 é o segundo molar decíduo inferior direito. Em dentição mista, a ficha registra os dois tipos ao mesmo tempo, cada dente com o número da sua dentição.
A secretária pode preencher o odontograma?
Achado clínico, indicação e baixa de procedimento são registrados pelo cirurgião-dentista, cuja assinatura e número de CRO o Código de Ética Odontológica exige em cada avaliação. A secretária cuida da parte administrativa: confere o cadastro antes da abertura do prontuário, transforma o plano em orçamento e agendamento e verifica, no fim do dia, se todo atendimento tem baixa lançada.
Qual a diferença entre o odontograma inicial e o de evolução?
O inicial registra a boca como ela chegou no primeiro exame, inclusive o trabalho feito por outros profissionais, e não se sobrescreve. O de evolução acompanha o tratamento: o que foi planejado e o que foi realizado, com data e profissional. Separados, os dois mostram o antes e o depois; misturados, apagam a prova do estado de partida.
Como corrigir um odontograma preenchido errado?
Sem apagar. A marcação errada recebe uma nova marcação datada, com uma nota curta do motivo e a identificação de quem corrigiu. O Código de Ética Odontológica pede o prontuário em ordem cronológica, com data, hora e autor de cada avaliação — e a correção é mais uma avaliação, não a substituição da anterior.
Em resumo
O odontograma é o mapa dos dentes dentro do prontuário, e preenchê-lo é seguir uma ordem fixa: dentição confirmada, numeração de dois dígitos da ISO 3950, face por face, três camadas separadas — encontrado, planejado e realizado —, legenda escrita da clínica e cada avaliação datada e assinada por quem registrou, como pede a Resolução CFO-118/2012. A recepção não marca achado clínico, mas mantém o cadastro certo, converte o plano em orçamento e garante a baixa do dia. Com a mesma regra no papel ou no sistema, o odontograma deixa de ser desenho e passa a ser a lista de pendências clínicas e financeiras da clínica.
Sobre a autora
Carla Duarte é redatora da Capim e graduanda de Odontologia. Escreve sobre gestão, recebimento e crédito ao paciente para clínicas.